Evolução do turismo, do aeroporto (mais de 9 milhões de passageiros) e preços da habitação em Ibiza, com a fiscalidade e o Modelo 210 para proprietários não residentes.
Ibiza passou de uma ilha agrícola e pesqueira das Baleares, quase isolada até aos anos sessenta, a tornar-se um dos destinos mais visitados e mais caros do mundo. O seu aeroporto fechou 2025 com mais de 9 milhões de passageiros e os seus municípios lideram hoje os preços recorde de habitação em Espanha. Este guia reconstrói a evolução da ilha — turismo, aeroporto e preços imobiliários — e explica que impostos paga em Espanha o proprietário não residente que compra em Ibiza.
1. A linha temporal: de ilha esquecida a ícone global
- Anos 30-50: isolamento. Economia baseada na agricultura, na pesca, no sal de Ses Salines e na emigração. O turismo era quase inexistente e a ligação com a península dependia do barco.
- 1958: o aeroporto civil. A abertura do aeródromo de Es Codolar ao tráfego civil rompe o isolamento. Ibiza começa a receber os primeiros voos regulares.
- Anos 60: a contracultura. Artistas, boémios e viajantes do movimento hippie escolhem a ilha pelo seu clima, pelos seus preços baixos e pela sua tolerância. Nasce o "mito Ibiza": liberdade, mercados de rua, pores do sol e uma identidade cultural distinta do turismo de massas da costa peninsular.
- 1973-1980: nasce o clubbing. A abertura da Pacha (1973) e depois da Amnesia e Privilege converte o lazer noturno na locomotiva económica da ilha. Ibiza deixa de ser barata.
- Anos 80-90: projeção mundial. Os DJs britânicos que passam o verão na ilha levam o som "Balearic beat" para Londres e Manchester. A ilha torna-se a capital mundial da música eletrónica e multiplica as suas camas hoteleiras.
- 1999: selo UNESCO. A UNESCO declara Património da Humanidade o conjunto "Ibiza, biodiversidade e cultura": as pradarias de posidónia, Dalt Vila, a necrópole de Puig des Molins e o povoado fenício de Sa Caleta. Ibiza soma um relato patrimonial ao de festa.
- 2000-2010: a viragem para o luxo. Hotéis boutique, agroturismos, restauração de herdades camponesas e chegada de moradias de alto nível. O comprador estrangeiro de alto poder aquisitivo substitui o turista de baixo orçamento como motor do mercado.
- 2015-2026: escassez e recordes. Solo limitado, moratórias urbanísticas, limite de licenças turísticas e procura internacional crescente empurram os preços para máximos históricos, com tensão severa no arrendamento residencial.
2. O aeroporto de Ibiza: crescimento e posição nacional
O aeroporto de Ibiza (IBZ) é a infraestrutura que explica a escala do fenómeno. Em 2025 superou os 9 milhões de passageiros, mais 0,7 % que em 2024, segundo os dados de tráfego publicados pela Aena. Com este valor, situa-se de forma estável entre os sete ou oito aeroportos com mais passageiros de Espanha (atrás de Madrid, Barcelona, Palma, Málaga, Alicante, Gran Canaria e Tenerife Sur, dependendo do ano), e é o aeroporto com maior concentração sazonal do país: em julho e agosto pode movimentar mais de 1,5 milhões de passageiros mensais.
Traços que o tornam singular:
- Sazonalidade extrema. Mais de 80 % do tráfego concentra-se entre maio e outubro; no inverno a atividade cai para níveis de aeroporto regional.
- Peso britânico. O Reino Unido é o primeiro mercado internacional, seguido por Itália, Alemanha e Países Baixos.
- Rotas nacionais muito densas. Barcelona, Madrid e Palma são as três ligações com mais passageiros anuais.
- Aviação privada. Ibiza é um dos aeródromos espanhóis com maior volume de aviação executiva no verão, o que reflete o perfil do comprador de segunda residência.
| Etapa | Passageiros aproximados/ano | Contexto |
|---|---|---|
| Anos 60 | Centenas de milhares | Primeiros voos regulares e charter |
| Anos 80 | ~2-3 milhões | Explosão do turismo de sol e discoteca |
| Anos 2000 | ~4-5 milhões | Consolidação como destino europeu |
| 2015-2019 | ~6,5-8 milhões | Baixo custo, novas rotas e viragem premium |
| 2020-2021 | Queda drástica | Pandemia e restrições de mobilidade |
| 2023-2025 | ~8,5-9 milhões | Recuperação completa e máximos históricos |
Os números por décadas são ordens de magnitude a partir das séries históricas de tráfego da Aena; o dado de 2025 (mais de 9 milhões) é oficial.
3. Preços da habitação: por que Ibiza é do mais caro de Espanha
Baleares é hoje a província mais cara de Espanha para comprar habitação em segunda mão. Os relatórios de preços do idealista situaram o preço médio provincial em cerca de 5.500 €/m² em 2025, com subidas anuais de dois dígitos, e vários municípios de Ibiza em máximos históricos. O caso extremo é Sant Joan de Labritja, que superou os 8.900 €/m², o nível mais alto entre as localidades que marcaram recorde.
| Zona | Preço orientativo de venda (€/m²) | Perfil |
|---|---|---|
| Sant Joan de Labritja | 8.000-9.000 | Norte rural, herdades e moradias exclusivas |
| Santa Eulària des Riu | 6.000-7.500 | Famílias internacionais, urbanizações consolidadas |
| Sant Josep de sa Talaia | 6.000-7.500 | Cala Comte, Es Cubells: primeira linha de luxo |
| Ibiza cidade (Eivissa) | 4.500-6.000 | Dalt Vila, Marina Botafoch, mercado urbano |
| Sant Antoni de Portmany | 4.000-5.000 | Turismo britânico, apartamentos e renovações |
| Formentera (comparação) | 6.000-8.000 | Oferta muito limitada, altíssima exclusividade |
Intervalos orientativos de mercado 2025-2026 segundo portais e estatísticas notariais; o preço real depende da qualidade, licenças e proximidade do mar.
Evolução aproximada do preço médio na ilha
| Ano | €/m² aproximado | Variação acumulada |
|---|---|---|
| 2000 | ~1.500 | Base |
| 2007 (pico da bolha) | ~3.000 | +100 % |
| 2013 (mínimo) | ~2.300 | +53 % |
| 2019 | ~4.400 | +193 % |
| 2025-2026 | ~5.500-6.000 | +270-300 % |
Ibiza teve duas particularidades face ao resto de Espanha: a sua correção após 2008 foi mais suave e mais curta, e a sua recuperação arrancou antes, já em 2013-2014, porque a procura é maioritariamente internacional e pouco dependente do crédito hipotecário espanhol.
4. Arrendamento: o mercado mais tensionado do país
A combinação de solo escasso, procura turística e pessoal de temporada tornou o arrendamento residencial no principal problema social da ilha:
- O arrendamento de longa duração move-se habitualmente entre 20 e 30 €/m² por mês, com máximos entre os mais altos de Espanha.
- Em época alta, uma moradia com licença turística pode faturar entre 5.000 e 60.000 € por semana consoante a localização, tamanho e serviços.
- A rentabilidade bruta da compra para arrendar costuma situar-se entre 3 % e 5 %: o preço de entrada é tão alto que comprime o rendimento, embora a mais-valia histórica tenha sido o verdadeiro atrativo.
- O arrendamento turístico requer licença e número de registo do Consell d'Eivissa; o número de lugares está limitado e as sanções por arrendamento ilegal são elevadas.
5. O que procura o turista em Ibiza que não encontra noutro sítio?
- Concentração de oferta noturna de nível mundial num raio de poucos quilómetros, com residências de DJs que nenhum outro destino reproduz.
- Contraste extremo: na mesma ilha convive o norte rural e silencioso com o lazer mais intenso do Mediterrâneo.
- Calas e água transparente protegidas pelas pradarias de posidónia declaradas Património da Humanidade.
- Património real: Dalt Vila amuralhada, a necrópole púnica e a jazida fenícia de Sa Caleta.
- Segurança, saúde e conectividade europeias, com voo direto de dezenas de cidades.
- Marca cultural construída durante 60 anos, impossível de replicar por um destino novo.
6. Fiscalidade do proprietário não residente em Ibiza
Se compra em Ibiza sem ser residente fiscal em Espanha, tributa pelo Imposto sobre o Rendimento de Não Residentes (IRNR) através do Modelo 210:
| Situação | O que se declara | Taxa | Prazo |
|---|---|---|---|
| Habitação de uso próprio ou vazia | Rendimento imputado (1,1 % ou 2 % do valor catastral) | 19 % UE/EEE · 24 % restante | Até 31 de dezembro do ano seguinte |
| Arrendamento | Rendimentos menos despesas dedutíveis (apenas residentes UE/EEE podem deduzir) | 19 % UE/EEE · 24 % restante | Declaração anual do exercício |
| Venda | Mais-valia patrimonial | 19 % | 4 meses após a escritura |
| Venda (comprador) | Retenção de 3 % (Modelo 211) | 3 % do preço | 1 mês após a escritura |
Além disso, pagará todos os anos o IBI municipal e a taxa de resíduos, e na compra o ITP das Baleares, com uma escala progressiva que atinge os escalões mais altos do país em imóveis de grande valor. Lembre-se que se o imóvel tiver vários proprietários, cada um apresenta o seu próprio Modelo 210 pela sua percentagem de titularidade.
7. Conclusão
Ibiza não é cara por acaso: é o resultado de 60 anos de construção de marca, uma infraestrutura aérea que movimenta mais de 9 milhões de passageiros por ano e uma oferta de solo estruturalmente limitada. Para o investidor estrangeiro, isso significa um ativo escasso com revalorização histórica muito superior à média espanhola, mas também uma fiscalidade e uma regulação de arrendamento turístico que convém planear antes de assinar.
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Fontes
- 1Aena — Nota de prensa: el aeropuerto de Ibiza supera los 9 millones de pasajeros en 2025
- 2Aena — Estadísticas de tráfico aéreo
- 3idealista — Informes de precio de la vivienda (Baleares e Ibiza)
- 4UNESCO — Ibiza, biodiversidad y cultura (Patrimonio de la Humanidad, 1999)
- 5Consejo General del Notariado — Compraventas por extranjeros
- 6AEAT — Modelo 210, IRNR
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