Análise da subida de preços em Madrid na última década e perspetivas para investidores não residentes.
Madrid leva uma década a encadear subidas de preços imobiliários e, longe de arrefecer o interesse investidor, cada novo recorde reforça a sua posição como primeira cidade europeia para investir em real estate segundo o relatório Emerging Trends in Real Estate Europe de PwC e Urban Land Institute (ULI) 2024 e 2025 [1]. Porquê? Porque a procura estrutural —oferta limitada, solidez do emprego, peso institucional, fiscalidade autonómica e capital internacional— está a crescer mais depressa do que os preços.
A evolução do preço: quanto subiu Madrid em 10 anos
Segundo o Índice de Precios de la Vivienda (IPV) do INE, o preço médio da habitação na Comunidade de Madrid subiu +78% acumulado entre 2015 e 2024, face a uma média nacional de +55% [2]. A estatística de valor de avaliação da Tinsa (IMIE) situa o preço médio da capital em torno de 4.250 €/m² no fecho de 2024, face aos ≈ 2.450 €/m² de 2014 — um crescimento de +73% numa década [3]. A Idealista, que mede o preço de oferta, chegou mesmo a 5.100 €/m² de média em Madrid capital em 2025 [4].
| Ano | Madrid capital (€/m², Tinsa) | Variação interanual |
|---|---|---|
| 2014 | ≈ 2.450 | — |
| 2017 | ≈ 2.950 | +8,7% |
| 2019 | ≈ 3.350 | +5,2% |
| 2021 | ≈ 3.480 | +2,1% |
| 2023 | ≈ 3.900 | +6,8% |
| 2024 | ≈ 4.250 | +9,0% |
Fonte: Tinsa IMIE Mercados Locales e Estadística Registral do Colegio de Registradores [3][5].
Mapa de preços por distrito: vencedores e atrasados
A subida não foi uniforme. Os dados cruzados da Idealista e do Ayuntamiento de Madrid (Observatorio Económico) mostram que os distritos prime duplicaram preços e os do sul arrancam agora um ciclo alcista próprio [4][6].
| Distrito | €/m² 2015 | €/m² 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Salamanca | ≈ 4.700 | ≈ 7.600 | +62% |
| Chamberí | ≈ 4.200 | ≈ 6.900 | +64% |
| Centro | ≈ 3.900 | ≈ 6.400 | +64% |
| Chamartín | ≈ 4.000 | ≈ 6.300 | +58% |
| Retiro | ≈ 3.800 | ≈ 6.100 | +61% |
| Tetuán | ≈ 2.600 | ≈ 4.700 | +81% |
| Arganzuela | ≈ 3.000 | ≈ 5.000 | +67% |
| Carabanchel | ≈ 1.500 | ≈ 2.900 | +93% |
| Usera | ≈ 1.500 | ≈ 2.800 | +87% |
| Puente de Vallecas | ≈ 1.400 | ≈ 2.700 | +93% |
| Villaverde | ≈ 1.250 | ≈ 2.300 | +84% |
Fontes: Idealista — relatório de preços por distrito (séries 2015 e 2025) e Observatorio Económico do Ayuntamiento de Madrid [4][6].
Três leituras-chave:
- O prime continua a subir em valor absoluto mas já não é onde mais acelera. Salamanca e Chamberí continuam a marcar recordes (operações pontuais acima de 12.000 €/m² em Recoletos e Almagro), mas a sua taxa de crescimento é inferior à dos distritos periféricos.
- O grande ciclo alcista da última fase está no sul e sudeste: Carabanchel, Puente de Vallecas, Villaverde e Usera lideram as subidas percentuais por efeito gentrificação, chegada de investidor institucional para build-to-rent e melhoria dos transportes.
- Tetuán e Arganzuela são os grandes vencedores da zona central-norte, com preços que já se aproximam dos distritos consolidados.
Porque é que Madrid continua atrativa apesar das subidas?
1. Liderança europeia no investimento imobiliário
O relatório Emerging Trends in Real Estate Europe 2025 (PwC + ULI) situa Madrid como a primeira cidade europeia por perspetivas de investimento e desenvolvimento, à frente de Londres, Paris e Berlim. É a terceira vez em cinco anos que Madrid encabeça este ranking [1]. A CBRE cifrou o investimento imobiliário em Espanha em 14.000 milhões de euros em 2024, com Madrid a concentrar cerca de 50% do volume [7].
2. Oferta estruturalmente insuficiente
O Banco de España tem alertado em vários relatórios que Espanha produz menos de metade das habitações novas necessárias para absorver a formação de agregados familiares, com Madrid como um dos mercados mais tensionados [8]. O Ministerio de Vivienda calcula um défice acumulado de centenas de milhares de habitações, o que atua como piso de preços a médio prazo.
3. Solidez do emprego e atração de talento
A Comunidade de Madrid contribui com cerca de 20% do PIB nacional e concentra a sede de praticamente todas as grandes empresas do IBEX 35, além dos principais bancos, escritórios de advocacia e consultoras [9]. A taxa de desemprego de Madrid está sistematicamente entre as mais baixas de Espanha, e a comunidade tem sido nos últimos anos o principal receptor de empregados deslocados da América Latina e de outros países europeus.
4. Fiscalidade autonómica favorável
A Comunidade de Madrid mantém a bonificação de 100% do Impuesto sobre el Patrimonio (matizada pelo Impuesto Temporal de Solidaridad de las Grandes Fortunas estatal), um ITP de 6% na transmissão de habitação (um dos mais baixos de Espanha) e bonificações em Sucesiones y Donaciones que a diferenciam face à Catalunha, Valência ou Baleares [10][11]. Para um comprador estrangeiro ou um elevado património, é um diferencial quantificável.
5. Capital internacional: o cliente latino-americano e a Golden Visa
Segundo o Colegio de Registradores, os compradores estrangeiros representam já cerca de 15% das operações na Comunidade de Madrid, com um forte peso de mexicanos, venezuelanos, colombianos, norte-americanos, chineses e franceses [5]. Embora a Golden Visa por compra imobiliária tenha sido eliminada em abril de 2025 [12], o fluxo latino-americano manteve-se por motivos familiares, fiscais e de segurança jurídica.
6. Hub corporativo e de escritórios
Madrid é o primeiro mercado de escritórios de Espanha: as Cuatro Torres do Paseo de la Castellana, AZCA, Méndez Álvaro ou o corredor A-1 concentram a procura prime. Isto arrasta o residencial de alta gama e o build-to-rent.
7. Infraestrutura e conectividade
O Aeropuerto Adolfo Suárez Madrid-Barajas fechou 2024 com um recorde histórico de 66,2 milhões de passageiros segundo a AENA, consolidando-se como um dos grandes hubs Europa-América [13]. A rede de Metro, Cercanías e AVE (Madrid-Barcelona, Madrid-Sevilha, Madrid-Valência, Madrid-Alicante em 2h20) situa a capital no centro logístico do país.
8. Build-to-rent e nova classe de ativo
Madrid concentra cerca de ~60% do pipeline build-to-rent de Espanha, com fundos como Greystar, AXA, Patrizia, DWS, Nuveen ou Aedas Homes Living a implantar milhares de habitações em arrendamento institucional, especialmente no sudeste (Los Berrocales, El Cañaveral, Valdebebas) [14]. Isto profissionaliza o mercado e cria liquidez para o investidor.
Rentabilidade bruta do arrendamento em Madrid
Segundo a Idealista, a rentabilidade bruta média de arrendar habitação em Madrid capital situa-se em torno de 5,0% em 2025, com extremos por distrito [4]:
- Puente de Vallecas, Villaverde, Usera, Carabanchel: 6,5% – 7,5% bruto.
- Tetuán, Arganzuela, Latina: 5,0% – 6,0%.
- Centro, Chamberí, Retiro: 4,0% – 5,0%.
- Salamanca, Chamartín: 3,5% – 4,5% (compensado por maior revalorização e menor vacância).
Riscos a vigiar
- Regulação do arrendamento. A Ley de Vivienda 12/2023 abriu a porta a declarar zonas tensionadas; Madrid não a aplicou, mas uma mudança de governo autonómico poderia alterar o cenário [15].
- Endurecimento do arrendamento turístico no distrito Centro, com licenças congeladas.
- Taxas de juro ainda acima da média histórica, encarecendo o financiamento.
- Impuesto Temporal de Solidaridad de las Grandes Fortunas (≥3 M€) que neutraliza parcialmente a bonificação autonómica de Patrimonio.
Implicações fiscais para o comprador não residente
Se compra em Madrid sem ser residente fiscal em Espanha, deverá cumprir o Modelo 210 de forma recorrente:
- Rendimento imputado anual (1,1% ou 2% do valor catastral) se a habitação não for arrendada.
- Imposto sobre os arrendamentos: 19% com deduções para residentes UE/EEE, 24% sem deduções para os restantes.
- Mais-valia patrimonial ao vender, com o reembolso da retenção de 3%.
- Guia completo: O que é o Modelo 210? · Hub Madrid · Madrid cidade · Pozuelo · Las Rozas.
Conclusão
Dez anos de subidas não desativaram o atrativo de Madrid: consolidaram-no. Oferta curta, procura crescente, fiscalidade competitiva, capital internacional e um peso institucional inigualável em Espanha compõem um quadro que explica porque a PwC e a ULI voltam a colocar Madrid no topo do ranking europeu de investimento imobiliário para 2025. Para o comprador não residente, continua a ser o mercado mais profundo, líquido e previsível do país — sempre com a obrigação recorrente do Modelo 210.
Fontes
- 1[1] PwC & Urban Land Institute — Emerging Trends in Real Estate Europe 2025
- 2[2] INE — Spanish House Price Index (IPV), Region of Madrid
- 3[3] Tinsa — IMIE Local Markets, Madrid city
- 4[4] Idealista — Madrid district sale and rental price reports
- 5[5] Spanish Land Registrars — Real Estate Registry Statistics (foreign buyers, Region of Madrid)
- 6[6] Madrid City Council — Economic Observatory, City of Madrid Economic Barometer
- 7[7] CBRE Spain — Real Estate Market Outlook Spain 2024-2025
- 8[8] Bank of Spain — Annual Report 2023, chapter 4: housing market
- 9[9] INE — Spanish Regional Accounts, Madrid GDP share
- 10[10] Region of Madrid — 100% Wealth Tax rebate
- 11[11] BOE — Law 38/2022 (Temporary Solidarity Tax on Large Fortunes)
- 12[12] Government of Spain — End of the real estate Golden Visa (RDL April 2025)
- 13[13] AENA — Traffic statistics Adolfo Suárez Madrid-Barajas Airport 2024
- 14[14] JLL / Savills — Spain Living & Build-to-Rent Market Report
- 15[15] BOE — Law 12/2023 on the Right to Housing (stressed zones)
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